E na semana em que celebramos o dia internacional das mulheres, vamos falar sobre um assunto muito sério: mães que sofrem violência doméstica. São muitas! Não só mães, mas mulheres em geral.

Existem vários tipos de  violência doméstica e familiar: violência contra a mulher, violência física, violência moral, patrimonial, psicológica, violência sexual… e isso precisa acabar, principalmente dentro dos próprios lares.

Confira abaixo um texto da nossa colunista Kenia, sobre mães que sofrem violência doméstica.

Mães que sofrem de violência doméstica

Enquanto para muitas mulheres o lar é um refúgio, um lugar acolhedor, protetivo e confortável, para algumas, se trata de um ambiente ansiogênico, que deflagra perigo e terror contínuos, onde a doença mental encontra um terreno fértil

Em meio a um emaranhado de emoções negativas, profundamente dolorosas e incapacitantes, a vítima vai sucumbindo. Nada pode ser tão desumano, quanto uma tortura sequencial que envolve a mãe e consequentemente a seus filhos, no próprio lugar, onde deveriam encontrar amor, descanso e proteção. A violência doméstica e familiar é a principal causa de feminicídio no mundo, mas apesar de ser um tema constantemente evidenciado nos jornais e mídias, muitas mulheres que sofrem abusos não conseguem identificar e sair da situação.

Conheça a Leia Maria da Penha

A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006), define cinco formas de violência doméstica e familiar. São elas: violência física, psicológica, patrimonial, sexual e violência moral. Neste momento de isolamento social, os riscos de agressão ficaram muito maiores, pois durante a pandemia do novo coronavírus, muitas mulheres, deste grupo, muitas mães e seus filhos, passaram a conviver 24 horas em casa, com seus agressores, elevando a preocupação com a violência doméstica e familiar contra a mulher.

O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), compilou e divulgou informações e temas esclarecedores/educativos, com o objetivo de auxiliar as denúncias dos casos. É fundamental que a sociedade, amigos e familiares das vítimas, compreendam que possuem um papel importante, em delatar o agressor, pois muitas das vezes, a vítima não consegue fazê-lo, seja por medo, ou por outros mecanismos inconscientes, como por exemplo, o receio de o agressor ser preso.

Na verdade, as mães são as principais vítimas de violência doméstica no Brasil, a Secretaria de Políticas para Mulheres da Presidência da República (SPM) registrou 52.975 denuncias de violência contra mulheres no Brasil, somente em 2014, e de todas as denúncias registradas, 80% das mulheres vítimas eram mães. Mesmo com dados tão alarmantes e consequências severamente dramáticas, infelizmente, muitas destas mães possuem dificuldades de romperem a relação abusiva.

Neste contexto, as reflexões sobre a permanência das mulheres em relações de violência ainda requerem maior detalhamento sobre sua complexidade. A denominação violência doméstica, permite maiores possibilidades de interpretação das crenças de sacralidade sobre a instituição família, e aponta um olhar realístico, sobre a natureza do fenômeno. De forma psicoeducativa, é importante destacarmos como funciona o ciclo da violência contra a mulher, de que maneira a agressão se manifesta na maioria das relações abusivas.

Ela é caracterizada por três etapas:

  1. a fase da tensão (momentos de raiva, insultos e ameaças, deixando o relacionamento instável)
  2. a fase da agressão (quando o agressor se descontrola e explode violentamente)
  3. e a fase da lua de mel (o agressor pede perdão e tenta mostrar arrependimento).

    Esse ciclo se repete, diminuindo o tempo entre as agressões e se torna sempre mais violento. Logo, essa mulher terá sua capacidade mental comprometida, estará esgotada e apresentará problemas psicológicos que poderão levar a quadros psiquiátricos e prejuízos severos na sua saúde global, no trabalho, na autoestima, no autocuidado, nos cuidados com os filhos. Em alguns casos, o flerte com a morte ou mesmo o óbito, são o desfecho trágico e dramático da vida de uma mãe que não encontrou ajuda social ou familiar, para enfrentar este contexto; em que muitas das vezes, ela foi julgada, negligenciada, como se fosse fácil deixar o agressor e recomeçar a sua vida, como se tivesse saúde psicológica para elaborar o curso violador e o sequestro emocional, vivenciados.

    Leia também: saúde mental das mães

Alguns dos motivos que tornam mais difícil a quebra de vínculo com o abusador: medo do agressor, dependência financeira ou codependência emocional, crenças religiosas de que é preciso manter o casamento a qualquer custo, vulnerabilidade psicológica incapacitantes, quadros de depressão ou pânico que sucumbem as iniciativas e a autonomia emocional, dificuldade de romper um relacionamento de anos com quem se teve laços afetivos fortes, sentimentos de desvalia; dentre outras crenças disfuncionais condicionadas pela sociedade.

Algumas crenças mais comuns:

  • todo casamento é difícil;
  • homem é imaturo e explosivo;
  • em algumas fases ele me ama e devo considerar isso;
  • certamente isto irá mudar com o tempo e ele irá amadurecer;
  • só preciso fazer o que ele me pede;
  • se eu o deixar ele pode me matar;
  • não tenho mais idade e nem força para recomeçar minha vida;
  • ficar sozinha para sempre pode ser pior;
  • ele está certo… não faço nada direito e por isso fica tão bravo;
  • meus filhos não podem ficar sem o convívio com o pai e o padrão de vida que possuem;
  • entre outros pensamentos e crenças disfuncionais e irreais.

E em muitos casos quando a mulher finalmente encontra condições para deixar o abusador, o terror não acaba. Inclusive, é um momento muito perigoso para as mulheres. Falando ainda deste modelo mental do agressor, em muitos casos ele utiliza o filho como barganha e manipulação para afetar a mãe. Alguns nunca exerceram a paternidade antes de serem afastados da família pela medida protetiva.

Segundo um estudo, uma das maiores estratégias dos agressores é destruir a autoestima da mulher, levando a ela se questionar sobre suas capacidades, insultar ou invalidar uma mulher na frente de seus filhos, retira a autoridade que ela precisa ter para ser uma mãe confiante e destrói a sua autoestima. As vítimas, muitas vezes se sentem paralisadas pelo medo por serem tratadas como objetos inanimados, e apresentam comportamentos e reações de defesa.

O modelo vitimista, na qual a vítima figura como passiva, além de não dar conta da realidade histórica, revela um pensamento absolutamente autoritário. As mulheres/mães, continuam a ser culpabilizadas exclusivamente por não protegerem seus filhos do agressor. Além das falsas culpas a sociedade e familiares as classificam de negligentes e cumplices. Considerando o a teor desta perspectiva desumana e catastrófica, conscientizar a sociedade sobre este fenômeno é de extrema relevância, a violência doméstica é um tema que precisa ser fortemente evidenciado, e de responsabilidades de todos.

Este texto foi escrito por:

Kênia Braga Gondo

Diretora e fundadora da VIVAPLENO – Saúde Mental Clínica e Corporativa.

www.vivapleno.com.br

@vivapleno

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