Mais um post da nossa colunista Kênia sobre alerta a saúde mental das mães.  Nós mulheres, sabemos da importância de cuidar da nossa saúde emocional, mas é ainda mais essencial quando somos mães. Principalmente, diante do cenário todo em que vivemos depois do isolamento social.

Confira esse texto completo da Kênia sobre o tema.

Alerta a saúde mental das mães

*Por Kênia Gondo

A sua saúde mental de uma mãe deveria ser vista como uma prioridade. Mas o que aparece na realidade, é muito diferente desta consciência fundamental. A questão é, que sempre que uma mãe resolve parar suas exaustivas funções e priorizar a saúde mental, elas são julgadas e o resultado disso são mães sofrendo silenciosamente com depressão, síndrome do pânico, transtornos de ansiedade, entre outras psicopatologias importantes. Cuidar da sua saúde mental é sim, prioridade e deveria ser todos os dias, uma busca autoconsciente e reforçada socialmente. Não faz sentido cuidar dos outros, sem cuidar de si mesma…

A gestação desencadeia mudanças físicas, emocionais, sociais e necessita de uma grande adaptação profissional e pessoal, muitas vezes comprometendo a saúde mental. Durante a gravidez e após o parto, observa-se um aumento do risco de problemas de saúde mental nas mulheres. Normalmente as mães lidam com um nível de ansiedade alto em decorrência das preocupações com a gestação e as mudanças do corpo e posteriormente com o ajustamento de suas funções maternas e adaptações em variados contextos de vida durante a chegada do bebê.

A saúde mental das mães impacta necessariamente no desenvolvimento e no crescimento saudável dos filhos. A consciência de que a saúde mental da mãe requer o mesmo cuidado que a saúde física, eleva as chances de manter mãe e filho saudáveis na gestação e no puerpério, portanto é muito importante levar informações sobre a promoção da saúde mental maternal; sem saúde mental não existe saúde física. Os transtornos mentais associados a maternidade merecem destaque, pois afetam milhões de pessoas, no mundo inteiro, cerca de 10% das mulheres grávidas e 13% das mulheres, sofrem de um distúrbio mental, principalmente a depressão, um número bem expressivo, considerando ainda os casos que não são notificados.

O que dizem as pesquisas

Uma análise recente mostrou que cerca de 20% das mães em países em desenvolvimento, incluindo o Brasil, experimentam a depressão pós-parto. No Brasil, especificamente, o índice é bem preocupante: cerca de 15,6% durante a gravidez e 19,8% após o parto sofrem de distúrbios mentais. Mas os principais problemas relacionados a maternidade, vão muito além da depressão pós-parto ou hormônios. A morte por automutilação e suicídio também é um fator alarmante entre mulheres grávidas, de acordo com a Revista Pan Americana de Salud Pública, entre 2,7% a 10,9% das mulheres grávidas apresentam ideação suicida.

Como se não bastassem todas estas variáveis que interferem na saúde mental feminina, segundo a Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as mulheres são o grupo mais vulnerável a problemas de saúde mental durante a pandemia, sendo assim, as mães, gestantes e puérperas, ficam ainda mais suscetíveis a quadros de psicopatologias. Muitas destas mães, trabalham em home office e enfrentam muitos desafios com as crianças em tempo integral, funções domésticas, de trabalho, monitoramento das aulas online dos filhos, gerenciamento dos sentimentos e emoções deflagrados pela situação da Covid 19, conflitos familiares; algumas perderam o emprego e sobrevivem de auxílios do governo.

Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 91% das mulheres afirmam fazer tarefas domésticas, apenas 55% dos homens dizem que cuidam do lar, o que é resultado de uma sobrecarga física e emocional das mulheres, mediante a comportamentos sociais disfuncionais e preconceituosos em favor de um trabalho reprodutivo, não remunerado, realizado pelas mulheres, que permanece desapercebido e desvalorizado. Mesmo que não haja evidências científicas de que a infecção pelo novo corona vírus funcione de maneira diferente na gestação, grávidas e lactantes necessitam receber uma atenção diferenciada e encontram-se mais alarmadas.

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Uma nota técnica do Ministério da Saúde recomendou que a amamentação continuasse a ser incentivada, e novos protocolos nas maternidades, passaram a conscientizar as pacientes a usarem máscaras e adotarem constante higienização das mãos. Segundo a OMS, as mães podem amamentar mesmo se estiverem com covid-19, a Sociedade Brasileira de Pediatria e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia também recomendaram o aleitamento, sugerindo a proteção do bebê, por meio dos anticorpos presentes no leite materno.

A psicose também é um problema de saúde mental na maternidade, em alguns casos conduz ao suicídio e proporciona variados prejuízos ao recém-nascido e aos familiares, o aumento do risco de suicídio e as doenças mentais nas mães, podem deflagrar consequências graves, chegando até mesmo ao infanticídio. Também não podemos esquecer do alto número de incidência da depressão, que tem prevalência em cerca de 20% das mulheres grávidas. A depressão causa enorme sofrimento e incapacidade e reduz a resposta às necessidades da criança e saúde mental de ambos. Tratar a depressão das mães possibilita uma evolução no desenvolvimento do recém-nascido e reduz a probabilidade de desnutrição e o desencadeamento de quadros psicopatológicos na vida da criança. A doença mental persistente, não tratada, compromete o vínculo mãe-bebê, a amamentação e o cuidado infantil, ocasionando ainda, problemas familiares e predispõe quadros psiquiátricos sérios.

Baby Blues

Quando falamos sobre alguns quadros mais específicos, neste contexto, é importante distinguirmos a depressão pós-parto do baby blues, a depressão pós-parto portanto, se trata de uma depressão desencadeada por algum processo ligado ao gestar e cuidar que se dá no puerpério. É um quadro importante, que necessita atenção e de tratamento psiquiátrico/psicológico. Já o baby blues, mesmo apresentando semelhanças em alguns aspectos, trata-se de uma tristeza materna, sentimentos de melancolia, no qual grande parte das mulheres experimentam este estado no puerpério, e tem correlação com a perda da barriga, pela mudança de papel de filha para mãe, questões hormonais, dentre outras transformações decorrentes do momento. É fundamental adquirir um bom gerenciamento das emoções, pois são muitos os medos, preocupações e desafios que se fazem presentes quando uma mulher decide ser mãe. É muito importante compreender como estes medos interferem na qualidade de vida, o quanto a saúde mental está sendo afetada, e inclusive entender o quanto tudo isso irá impactar também na relação com o parceiro, nas relações sociais e na saúde física da mulher e filho.

O autoconhecimento e a percepção de suas crenças e limitações, são fundamentais para a saúde emocional da mãe; um processo psicoterapêutico pode ditar a diferença entre uma gravidez e maternidade segura e problemas emocionais como depressão, ansiedade, pânico dentre outras psicopatologias que podem ser deflagradas na gestação e puerpério. Quando uma mãe esta na cadeira de psicologia para aprender a colocar prioridade em sua saúde mental ela se sente bastante culpada quando questionada sobre o tempo de qualidade com os filhos e demonstra muitas objeções para conquistar uma vida que valha a pena ser vivida, com autocuidado e tempo para si mesma. Para manter a saúde mental, a identificação precoce da presença de fatores de risco para a depressão no pós-parto entre outras psicopatologias é fundamental. É essencial que a mãe esteja consciente de fatores preditores e busque a psicoterapia para conseguir para aprender estratégias emocionais e comportamentais para prevenir o quadro depressivo.

Fatores de Risco para Depressão nas Mães

Dentre os fatores de risco estão: a gravidez de risco ou partos complicados, histórico de psicopatologia, gravidez não planejada, situações financeiras ruins ou desemprego, stress crônico ou má relação com a própria mãe, falta de apoio familiar, ausência de amigos, estado civil, problemas de humor da mãe durante a gestação, conflitos com o parceiro, autoimagem negativa, stress, maternidade precoce, separação conjugal, abuso psicológico, agressão, luto de algum ente querido, o temperamento da criança.

 A Importância da Psicoterapia Preventiva para Mães

Um acompanhamento psicoterapêutico da mãe pode ser sugerido como uma intervenção preventiva das psicopatologias citadas neste artigo, quando reconhecido algum dos fatores preditores para problemas de saúde mental.

Identificar precocemente situações ou sintomas, é o primeiro passo para indicação de acompanhamento especializado na área da saúde mental da mãe. Na psicoterapia elas aprendem que o autocuidado é fundamental até mesmo para que os filhos possam modelar essa mãe e também aprenderem pelo exemplo a cuidarem de si mesmos e priorizarem coisas importantes para serem mais felizes; cuidar do outro e esquecer de si mesmo é algo que as mães não deveriam ensinar a seus filhos.

A intervenção psicológica para grávidas que apresentam maiores dificuldades na gestão das emoções pela sintomatologia depressiva, ansiosa, ou pela baixa de autoestima, melhora o quadro e para aquelas que não deflagraram nenhum quadro importante de doença mental, pode ser feita a intervenção de forma a prevenir sintomas negativos, trabalhando os medos e várias situações que possam ser complicadas na adaptação da maternidade.

São apresentadas várias estratégias psicoeducativas na psicoterapia cognitivo comportamental, que envolvem uma relação terapêutica de confiança e vinculo com a especialista, com foco na expressão dos sentimentos e reorientação emocional, ajustes de crenças, revisão de medos e fortalecimento de enfrentamentos, aquisição de novas habilidades e repertórios mais saudáveis, assim como rotinas com mais qualidade de vida (passeio com o carrinho de bebê, exercício físico, alimentação e  os pilares de saúde integral). A doença mental persistente, não tratada, compromete o vínculo mãe-bebê, a amamentação e o cuidado do filho, ocasionando ainda, problemas familiares que poderão afetar o bebê quando atingir a fase adulta.

Este texto foi escrito por:

Kênia Braga Gondo

Diretora e fundadora da VIVAPLENO – Saúde Mental Clínica e Corporativa.

www.vivapleno.com.br

@vivapleno





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