Em um novo estudo, uma equipe de pesquisadores da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, e da Universidade James Cook, na Austrália, usou eletrodos e um micro tomógrafo para medir a primeira evidência do que acontece com a audição de peixes de recife quando as larvas se desenvolvem oceano acidificado, rico em dióxido de carbono (CO2) dissolvido.

Eles descobriram que espécimes juvenis do pargo australiano podem ser cerca de 10 vezes menos sensíveis ao som – um golpe potencialmente fatal para animais que dependem da audição para encontrar o caminho de casa. O resultado da equipe destaca um exemplo surpreendente dos efeitos indiretos da mudança atmosférica.

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Filhotes desta espécie nascem no oceano aberto, e precisam nadar para chegar aos recifes de coral onde passarão sua vida adulta. Segundo Craig Radford, professor adjunto na Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, “muitos estudos mostram que o som é uma pista para que possam se orientar e encontrar o caminho”. Danificar a audição dos peixes, portanto, é uma ameaça à sobrevivência da espécie.

A acidificação do oceano muda a anatomia dos peixes. Estudos acumulados ao longo dos últimos 12 anos mostram que as pedras duras que constituem os “ouvidos” dos peixes, chamadas otólitos, crescem anormalmente quando as larvas se desenvolvem em águas mais ácidas.

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Mas o mais importante é que os otólitos perdem a simetria, e os cérebros dos peixes dependem dela para computar sua percepção da audição a partir do som bruto. Se você perturbar essa simetria, a matemática mental muda – e a audição do peixe se torna menos sensível. 

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“Se você tiver otólitos com formas diferentes”, diz Radford, “então um ouvido sentirá algo diferente do outro, o que tornará qualquer forma de localização sonora mais difícil”. Se você já perdeu o equilíbrio por causa de água obstruindo um ouvido, experimentou algo semelhante.

Para estudar quão severa é a perda de audição, a equipe de Radford preparou dois grupos de filhotes de pargo australiano. Um grupo, o controle, cresceu em água com a mesma concentração de dióxido de carbono encontrada atualmente nos oceanos. O outro cresceu em água com concentrações elevadas. Os peixes foram analisados com 42 dias de vida.

“Descobrimos que a sensibilidade a baixas frequências caiu”, diz Radford. Em frequências entre 80 e 200 hertz, a sensibilidade auditiva caiu cerca de 10 decibéis. A maioria dos peixes “vocais” (que produzem sons) se comunicam em frequências entre 100 e 300 Hz.

E a escala de intensidade sonora em decibéis é logarítmica: uma diminuição de 10 decibéis significa uma diminuição de dez vezes. “É uma má notícia, especialmente para os peixes, se eles não conseguem ouvir nessas frequências baixas”, diz Radford.

A acidificação da água (através do aumento da quantidade de CO2 dissolvido) aumentou o tamanho das “pedras” (otólitos) que compõem os ouvidos dos peixes (em azul na imagem acima), prejudicando sua audição. Imagem: Craig Radford, Universidade de Auckland.

A queda de dez vezes na audição foi observada entre os peixes expostos a um aumento de 120 por cento no dióxido de carbono dissolvido na água, de 450 para 1.000 micro-atmosferas de pressão. Esse grande aumento de concentração média não acontecerá nas águas superficiais nos próximos anos, embora se encaixe nas tendências de longo prazo se as emissões de CO2 continuarem inabaláveis.

Mas mesmo uma queda menor na acuidade auditiva, causada por uma acidificação mais branda, ainda seria significativa. Os peixes jovens ensurdecidos podem ter dificuldade em encontrar recifes ao migrar após a eclosão no oceano aberto. Se eles não podem se estabelecer, eles não podem sobreviver e desovar.

E esses peixes desempenham um papel importante na manutenção dos recifes. Peixes de recife predadores, por exemplo, comem herbívoros, que por sua vez mantêm o crescimento de algas sob controle. Algas que crescem demais sufocam os corais. O coral morre e sofre erosão. Abrigos de peixes e superfícies onde ovos se prendem desaparecem junto com ele. 

“Esse ecossistema desaparece”, diz Yvonne Sadovy, bióloga marinha da Universidade de Hong Kong que não participou do estudo. E o impacto pode chegar a nós, humanos. Em locais como as ilhas Maldivas, a população obtém 77% da proteína de suas dietas de peixes de recife. 

“Muitas pessoas acreditam que os mares são tão grandes e nós tão pequenos que não podemos ter um grande impacto nas espécies e nos próprios mares”, diz Sadovy. “Mas, na verdade, estamos tendo esses impactos. Realmente estamos. Nós sabemos disso.”

Fonte: Wired. Imagem: Fir0002/Flagstaffotos (CC-BY-NC)





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